Escrevi sobre o síndrome do edifício doente, escrevi sobre o radão e prometi uma solução.
Estive envolvido em algumas construções com bio materiais. Construção com canas durante duas edições do Boom Festival. Construção de uma casa com adobe e fardos de palha…
Fiz depois 2 formações. Uma não é de biomateriais, a de Earthship Houses (quem quiser saber mais sobre esse assunto pode ver o documentário “Garbage Warrior” de 2007)
A outra formação foi a que me apaixonou mais, trata-se de construção com cânhamo.
A construção de cânhamo pode ser por blocos de cânhamo pré feitos, e aplicados nas paredes, mais ou menos como uma construção de tijolos de cimento, mas sem o uso de cimento para os colar. Ou fazer a mistura na hora. Mistura essa que é: miolo de cânhamo misturado com cal hidratado e opcionalmente outros minerais.
A casca do cânhamo não é usada para esta mistura. A casca por ser fibrosa é usada para fazer fio, cordas, ou tecido, entre outras coisas.

Feita a mistura usam-se cofragens e aplica-se a “argamassa de cânhamo”, compactando-se essa argamassa antes de se aplicar mais. Vai-se assim enchendo e crescendo em altura.
Pelo que vi, e experimentei fazer, as paredes de cânhamo são muito versáteis.
Podemos fazer as cofragens com curvas. Não se consegue tão bem com os tijolos pré feitos.

Podemos, se quisermos aplicar cabos, tubos, tomadas, interruptores à posteriori, esburacar a parede feita, instalar ou corrigir. A calha que advém daí cobre com nova massa de cânhamo depois de instalado o que se tem de instalar.
Apesar dessa possibilidade é preferível ter esses detalhes já planificados antes de começar a construção.
O cânhamo, resultado desse cavar da parede, pode voltar para a mistura e não se desperdiça material.

Mais, este material não incendeia.
Mesmo com um maçarico directo ao material ele não pega fogo.
Arde. Passado algum tempo o material exposto à chama está convertido em cinza, e desfaz-se à fricção, mas sem inflamar.
Propriedades deste material:
O ar nos intervalos e o material lenhoso conferem isolamento térmico. Passivamente a habitação não arrefece tanto no frio e não aquece tanto no calor.
A porosidade permite que a casa respire. Não acumula gazes no interior como acontece com materiais ou tintas impermeáveis. Não criando condições para a retenção de Radão falado num artigo anterior, ou outras doenças como o Síndrome do edifício doente.
Permite também que não haja acumulação de zonas húmidas na casa pois o ar circula. Não há portanto a propensão para o desenvolvimento de bolores. (A adicionar ao facto de que a cal da mistura é antifúngica)
Como se não bastasse acrescenta-se o facto de que as casas de cânhamo são sumidouros de carbono. A mistura absorve carbono fazendo com que os materiais endureçam ao longo dos anos. A taxa de captação é de 27kg eq/m3 (equivalente por metro cúbico) (informação retirada do livro The HempLime Handbook by HES)
Tudo somado temos uma casa, que sequestra carbono da atmosfera dessa forma endurecendo com o passar do tempo. Isolante térmica, e invulnerável à humidade.
Agora caro leitor, surge o pensamento. “Muito bonito, mas só se aplica a construções de raiz.”



A verdade é, este material pode ser usado quer em paredes interiores, quer exteriores quer a forrar uma parede existente de betão, tijolos, granito ou outro.

Consoante o gosto pode-se deixar a parede bruta. Pode-se usar um grão mais fino de cânhamo, como que um serrim como se vê na imagem ao lado, no caso de se querer uma parede mais lisa. E por fim pode-se pintar com uma tinta amiga do ambiente que não seja impermeável. Não queremos estragar as propriedades saudáveis da bio construção com uma tinta química impermeável e hermética.
Eu pessoalmente fiquei com vontade de picar as todas as paredes da minha casa e substituir por hempcrete. O nome deste material.
Atenção, não quero com isto dizer que só este material tem estas propriedades. Há muitos outros materiais que permitem que a casa respire. Que sejam amigas do ambiente. Que sejam amigas da nossa saúde. Que sejam bons isolantes térmicos e de humidade.
Este material tem é estas propriedades todas ao mesmo tempo.
Vou terminar com um ‘disclaimer’ e com uma reflexão.
O meu conhecimento de materiais é limitado, Não tenho formação em Engenharia Civil. No curso de Engenharia Física que não terminei não se falou de todos os materiais possíveis para fins de construção.
Era importante, que o governo e que as leis permitissem a produção deste material. Mais do que dar incentivos é essencial diminuir as dificuldades no cultivo. Incentivos vão para quem os consegue pedir, os pequenos agricultores muitas das vezes não qualificam sequer para eles. Ou porque a parcela é demasiado pequena, ou porque os licenças chegam demasiado tarde e já fora da época da sementeira, ou por qualquer outra razão…
Fotos minhas durante a formação feita com a Hemp Eco Systems
Aconselho a leitura do livro: “The HempLime Handbook” by HES disponível na Amazon
(Não recebo comissão, simplesmente acredito nas vantagens deste sistema)
